segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Ciclo

4ª Feira - Méier

Não sei se isto é válido para todos os professores, mas um dos sonhos que sempre tive, desde que comecei a dar aulas, era trabalhar nos lugares onde estudei e onde deixei minha marca (que muitas vezes passaram desapercebidas, devido ao meu mumificável comportamento).
Antes de descobrir que poderia ter carisma e ser quem sou, era um cara extremamente tímido, coisa de ficar vermelho se conversasse com mais de duas garotas ou se tivesse qualquer brincadeirinha mais "quente". Resumindo eu era uma múmia. Mas aí quando entrei para os pré-vestibulares fui mudando meu comportamento, perdendo a timidez até chegar a este estágio de não ter a menor vergonha na cara mesmo se desse aula para mais de 500 pessoas (na verdade este é um feitiche que tenho como professor) e ter uma aula um tanto....quente (modéstia a parte).
Então sempre insisti muito desde o início a entrar nestes colégios que estudei, enviando currículos, conversando com todos que fizeram parte da minha vida escolar, do faxineiro ao diretor e, sempre me foi percebido, não somente nestes mas em vários outros colégios que quando viam que eu era (e sou) aluno de uma universidade particular, logo faziam cara de limão ou de "século que vem entro em contato".

CAPACIDADE NÃO SE MEDE POR CURRÍCULO! E SOU A PROVA VIVA DISTO!

Então...
Na terça passada recebi a ligação do colégio que me "acolheu" durante todo o meu Ensino Médio, o que eu mais insisti de entrar, e que, posso estar enganado, mais sofri impasses por pertencer a uma universidade particular. As indiretas sempre me foram muito claras, como a do tipo:

- O não sei quem está fazendo UFRJ, por que você não?

Mas sempre de cabeça erguida encarei e aprendi a esperar meu momento. Um dia ia chegar... e chegou. Esta maravilhosa terça-feira. Obviamente assim que fiquei sabendo da minha aula no dia seguinte, soltei um berro tal como um gol de final de Copa do Mundo!
Na quarta, cada passo que eu dava soava como um filme, a preparação para uma das batalhas mais importantes da minha vida. Aquele pequeno momento, entre 10:50 e 12:30 selariam meu futuro dentro daquele colégio, tinha e tenho certeza disto. A cada segundo me lembrava de uma história que passei, as boas, as ruins e as péssimas. Meus amigos, meus não amigos, meus professores, tudo, e de quebra tentava me concentrar no caminho para o colégio.
Foi um dos momentos mais difíceis de conseguir me concentrar. Era muita coisa em jogo.
Mas quando entrei na sala, me deparei com o Diretor, que me cumprimentou e vários antigos professores meus. Um deles quando soube de minha aula disse:

- Chega mais! Agora você é um de nós!

Minha concentração na hora atingiu um novo patamar. Foi algo inexplicável me sentir a mesma altura que meus professores!
Recebi uma folha de exercícios e em pouco menos de 2 minutos já havia montado mentalmente a aula (foi muuuito foda fazer na frente de todos os professores). Quando o Ditretor me perguntou como seria minha aula dei todos os detalhes, tal como mun relatório, explicando minha metodologia e etc.
O melhor foi a reação de surpresa dele, do tipo:

"-Como alguém de particular pensa assim?" - e ele ainda não tinha visto nada...

Bateu minha hora. A sensação que tive no momento foi quase tão intensa quanto ao do meu primeiro dia de aula na carreira, lá em Rio das Pedras. Haviam me dito que na turma haviam apenas 4 meninos umas 20 meninas, ou seja, era realmente um desafio. Acreditem, meninas quando estão juntas conversam pra caramba e se você for o professor gostosão elas vão conversar porque vc é gostosão e assim vai. Se bober tem até relatório de desempenho sexual (como já me ocorreu em outros momentos)!
A aula deveria ter sido feita em câmera lenta. Me lembro o último filme do Balboa. Sofri, apanhei, até domar a turma e quando domava, era foda. Era como um barco lutando contra a tempestade e a diferença é que eu conhecia aquela tempestade, pois um dia já fiz parte dela. O perfil do aluno ali era bem difícil e como um professor outra vez havia me dito, se conseguisse dar aula neste colégio, conseguiria dar aula em qualquer outro lugar!
Ao exato término da aula o Diretor reaperaceu e deu um recado para a tuma. Este fato me fez confirmar algo.... estava me sentindo observado a aula toda e como ele adivinhou que minha aula tinha acabado, tão repentinamente assim???
A parte boa foi que ele chegou para mim, me cumprimentou e disse com cara de orgulho:
- Parabéns, a partir de agora, você é nosso monitor. Assim que precisarem você será nosso primeiro nome. Para todas as séries.

Missão 0.000001 cumprida. E é só o começo...

Por sinal estava pensando numa frase em homenagem aos que acham que todos que são de particular são inferiores por causa de uma porcariazinha de diploma.

"Estar em um lugar mais fraco (particular) é válido demais. Se estivesse em um lugar forte, seria covardia demais na competição com o resto (públicas)."

Esta é para fechar:

"Limites só existem para quem é limitado."

Até a próxima.

2 comentários:

Luifel disse...

Velho, tenho q concordar com vc que capacidade não se mede por onde se estuda mesmo. Eu mesmo estudo na tão famosa USP, e estudo com muita gente com potencial e competência, mas também estudo com muita gente inútil...

E limites, foram feitos para serem sempre superados!

Abç.

carla m. disse...

Faço minhas as palavras do Luifel.

E te dou parabéns. Eu me formei numa pública há dois anos, em História e ainda não consegui um emprego como professora, só temporários. Acabei indo fazer mestrado, e agora já estou pensando no doutorado, por que a bolsa é tentadora.

Parabéns de novo!!!!